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EFEITO MANADA

Cuidado: a pressão social pode fazer você mudar de opinião – e até de percepção – sobre algo.

 

Ao sairmos de uma sala de cinema e percebermos que uma grande quantidade de pessoas está indo por um caminho x… sem pensar em alternativas para a saída, apenas os seguimos. Sabemos onde estão indo? Provavelmente não. Aquele caminho por onde todos estão indo é a melhor opção? Às vezes não. E mesmo sabendo por qual caminho deveríamos seguir (caso tivéssemos prestado atenção, ao entrar, no trajeto mais apropriado para sair), a tendência é irmos junto com o grupo, sem o contradizer ou nos desviar – vamos “na onda”, no embalo da multidão, seguimos o fluxo. Essa tendência comportamental é conhecida como “efeito manada”.

Curioso é pensar que algo tão primitivo do instinto humano possa, até os dias atuais, fazer-nos seguir por essa tendência… Esse seguir inconscientemente regras impostas de forma tácita nos leva a comprometer nossa intelectualidade – nossa condição de seres pensantes – por pressão do grupo em que estamos inseridos. É importante tomar consciência dessa realidade para nos mantermos em alerta, evitando os prejuízos que isso pode causar em nossos cérebros e em nossas vidas, pois esse efeito nos expõe ao perigo de confiar cegamente em influenciadores, em pessoas de destaque – tanto dentro quanto fora do ambiente católico.

Nos estudos da mente e de psicologia social, o efeito manada é conceituado como conformidade social. Para Mucchi Faina, psicóloga social de renome internacional, o efeito manada se caracteriza pela adesão a opiniões ou comportamentos que prevalecem no meio social, mesmo quando se apresentam em dissonância com o nosso próprio modo de pensar.

Essa busca de conformidade – também denominada de tendência ao conformismo – significa, contudo, não apenas agir como os demais agem, mas também estar condicionado pela forma que agem, levando o ser a pensar e agir de forma diferente do modo como faria de forma independente das influências grupais. Por esse motivo, o conformismo gera mudança no comportamento, nos pensamentos e nos sentimentos das pessoas diante de normas sociais praticadas pelo grupo.

OS PRIMORDIOS DO COMPORTAMENTO COMUM

Nos tempos antigos os seres humanos viviam em bandos, eram mais suscetíveis a doenças, predadores e demais riscos à integridade do corpo, à sobrevivência. Assim, quando viam que um grande grupo de pessoas atravessava o rio por um determinado lugar, relacionavam a opinião da maioria com a forma correta de fazer, pois se todos estavam indo por ali, consideravam menores as chances de perigo neste lugar… Se uma maior parcela do grupo comesse uma fruta, as chances de morte seriam mínimas, porque esta já havia sido provada pelos demais. Então, o instinto de sobrevivência os alertava de que tal fruta não causaria a morte.

Os antagonistas e “rebeldes” do grupo tendiam a se expor a riscos de contraírem doenças e de morte muito maiores, pois se expunham mais ao perigo desafiando as normas seguidas pelos demais… Assim, “ir contra a correnteza”, na “contramão” da maioria era algo que raramente se fazia.

Portanto, a conformidade social, ou “efeito manada” é algo instintivo do ser humano – uma espécie de herança genética impressa em nossa natureza, por ter sido meio de sobrevivência e adaptação social. Tal herança instintiva se constitui a base dessa espécie de impulso inconsciente para agir de acordo com as regras ou costumes já predeterminados pelos grupos em que estamos inseridos. Caso não o fizermos, nos tornamos suscetíveis ao risco de sermos discriminados, vitimados por preconceito, ataques, exposição à sensação de vulnerabilidade e vergonha. Então, para ser moralmente aceito e não se expor a tais riscos, o indivíduo tende a se conformar com a opinião da grande massa e passa a atuar da forma ditada, para se encaixar no grupo.

Solomon Ash, psicólogo gestaltista polaco-estadunidense, é considerado pioneiro da psicologia social e seu trabalho mais conhecido sobre conformidade é denominado “Experimento Ash”, realizado com o objetivo de demostrar as influências que o grupo tem sobre o indivíduo, além de como suas escolhas são afetadas pela pressão dos demais.

O vídeo denominado “Conformidade Social – O Experimento em uma sala de espera” proporciona uma ideia geral do que Ash investigou.

Assista ao video:

  • A NECESSIDADE DE PERTENCIMENTO

Vemos no vídeo uma garota que chega de forma natural, seguindo sua vida normal, como de costume, na sala de espera de um consultório. As outras pessoas na sala são atores instruídos para o teste social, sem o conhecimento prévio dela. Nos primeiros toques ressoados ela percebe a movimentação estranha que todos estão fazendo, de se levantar a cada sinal ressoado. Isso a perturba e facilmente vemos o desconforto em seu olhar e no seu jeito, sendo também perceptível seu descontentamento em efetuar tal ação de se levantar e sentar. De início ela hesita, porém o incômodo de não fazer parte do grupo torna-se maior do que o gerado pela falta de sentido em realizar tal ação. Conforme os psicólogos sociais, isso se dá pela necessidade de pertencimento.

Como seres humanos, temos a necessidade inconsciente de sermos aceitos. Isso é natural, pois o fato de estar desagradando nos perturba, sendo tal necessidade de pertencimento evidenciada ao final do vídeo: ela afirma ter se sentido mais confortável depois que começou a fazer como o grupo.

A sensação de pertença a um grupo faz com que nos sintamos mais à vontade conosco e com os outros, o ser aceito gera a sensação de bem-estar. São comuns casos de pessoas que mudaram drasticamente suas convicções ao ingressar em determinado grupo, mudando a forma de se vestir, falar, agir…

Aqui em nossa casa, a Comunidade Católica Transfiguração, promovemos periodicamente um evento, um retiro chamado Hava. Nele muitas pessoas compreenderam e vivenciaram profundamente realidades da fé católica que geraram mudanças positivas das mais expressivas em suas vidas, incluindo grandes superações.

Porém ao chegar em casa, retornando ao meio social em que viviam, na convivência com a família e os amigos, a pressão e o medo de não fazer “parte da galera” faz com que muitos deles recaiam no vício e voltem para a lama, mesmo conhecendo a verdade do mal do vício e da vida desregrada. O medo de não serem aceitos pelo meio os faz regredir, mesmo sabendo qual é o caminho certo… Abandonam o correto pela pressão dos amigos.

A busca de aceitação e adaptação social tornam-se necessidades da pessoa ao adentrar em meios desconhecidos, como forma de “camuflagem” para os tímidos e aceitação para os mais desenvoltos. A conformidade, o “efeito manada” tende levar o ser a se amoldar às formas de comportamento já consolidadas, por mais que não sejam compatíveis com os valores da pessoa. Tende a tolerá-los por conta do pertencimento.

  • COMPORTAMENTOS APRENDIDOS/ ERROS PERPETUADOS

Os psicólogos sociais identificaram também, no decorrer das pesquisas, os chamados comportamentos aprendidos e erros perpetuados. Muitos valores aprendidos com os próprios pais, familiares e amigos, também podem não estar corretos e  sabemos disso – o erro às vezes é escancarado – mas aquilo já estava tão impregnado quando chegamos, que ir “a favor da maré” torna-se natural. Por exemplo: comportamentos que evocam racismo, preconceito, intolerância, muitas vezes são percebidos – a consciência os acusa – porém ao invés de dar um basta, os erros são perpetuados.

Inúmeras foram as vezes que fomos repetidores de sinais e costumes que já não fazem sentido nas circunstâncias atuais, instigados por pensamentos que na realidade nem são nossos, mas de nossos pais, avós… Assim, o meio em que se está inserido pode mudar o caráter e também as escolhas.

Portanto, os “camaleões sociais” não divergem da regra do local – ser discreto e continuar no curso da correnteza é considerado por eles “uma forma melhor” de prosseguir do que enfrentar a pressão de olhos tortos e pensamentos críticos.

Para evitar cair nesse tipo de armadilha, é importante atuar com a consciência de que tanto as “verdades grupais” quanto as “minhas verdades”, nem sempre são de fato verdades – elas somente o serão quando fundamentadas na lei divina, na Palavra do Senhor.

  • O ANTAGONISTA E A AUTOAFIRMAÇÃO

É difícil dizer que erramos… Muitas vezes perpetuamos erros não porque não os identificamos, mas porque voltar atrás nos faz parecer fracos e ignorantes. Porém realmente fortes são aqueles que enxergam onde erraram e não têm medo de voltar no caminho para retomar a trilha correta.

O cristão autêntico precisa ser corajoso, atuar com a virtude da fortaleza, invocar a graça dessa virtude em suas orações, para agir sem medo de levantar os olhos e pensar por si mesmo, com a consciência de que suas ações são responsabilidades dele mesmo, tomando decisões raciocinadas e não porque viu alguém fazer ou falar isso ou aquilo em algum canal do YouTube. Deve saber ouvir os conselhos, as direções espirituais de sua comunidade de pertencimento, ou da instituição em que está inserido, não se deixando influenciar por um grupo. Atua com a consciência do seu lugar e sabe do seu valor no plano de Deus, não é do tipo que hoje segue fulano e amanhã ciclano – se mantém firme em seus valores e convicções. Não é aquele que cai na cilada dos filósofos atuais – caso em que teria que passar o resto da vida se autoafirmando – mas atua consciente de que não precisa provar pra ninguém sobre sua fé e a sua verdade em Cristo. Sua preocupação maior deve centrar-se em dar bom testemunho, agradando primeiro a Deus e depois os homens.

  • “INFLUENCERS”

Estamos em uma era digital, onde há pensamento e há cancelamento. Uma palavra torta num lugar errado pode gerar de fato um protesto, estamos na era da tecnologia, mas também da desumanização do ser humano. Muitos falam nas redes sociais e podem reverberar a voz tanto do bem quanto do mal. Mesmo as pessoas do bem podem ter suas almas prejudicadas quando seguem o “bonde lotado” do grupo dominante.

Virou moda seguir o pensador X, o doutor Y, o mestre da área tal ou o coach de outra – isto dentro e fora do ambiente católico. Assim, muitos são levados pela atração exercida por tais influenciadores, fazendo mudanças radicais e até mesmo escolhas que não fariam por si mesmos. Pela influência destes, a quem seguem, muitos começam a falar palavrão, beber, fumar e até mesmo a educar seus filhos de uma nova maneira, sem levar em conta as consequências de tais comportamentos na qualidade de vida da família ou daqueles que os rodeiam. Olhe para o seu lado direito e o esquerdo e pense: quem está tomando as decisões reais em sua vida? Você mesmo ou alguém distante, que não o conhece e não sabe de sua realidade?

Cada pessoa é única e deve administrar seu universo interior de forma pessoal. Entregar a alguém que não lhe conhece o controle de sua vida é tirar de Deus a entrega que você fez a Ele.

Podemos seguir conselhos, sim, principalmente quando estes nos edificam, mas não podemos seguir o efeito manada e achar que tudo que um tal “fulano da moda” fala está correto, acatando como incontestável. Até mesmo porque não devemos colocar ninguém em um pedestal elevado – seja no campo ideológico, seja nas crenças. O único que pode olhar para a sua vida e dizer de fato o que é necessário para mudá-la é o Cristo chagado e este muitas e muitas vezes é desprezado.

Erga sua cabeça e olhe além do horizonte, veja à frente o Senhor. O objetivo deste texto não é incitar a rebeldia contra as autoridades, muito menos contra a Santa Igreja ou sua doutrina. Respeite seus superiores e as autoridades a quem você foi confiado pelo Senhor.

Estamos a expor que existem situações e erros que cometemos por seguir os outros, que sem perceber aderimos a estes erros, por estarmos acometidos pelo conformismo, bloqueados por nossos medos, agindo institivamente, cedendo ao “efeito manada”. Tenha muito cuidado, analise bem se vale a pensa seguir quem você segue e antes de ser promotor de um influencer, seja um divulgador da Palavra de Deus, porque Jesus é sempre verdadeiro. Com Ele, precioso irmão, preciosa irmã, pode ter certeza: você nunca se frustrará!

 

REFERÊNCIAS:

Myers, D. G. (2009). Psicologia sociale. Milán: McGraw-Hill

https://br.psicologia-online.com/conformidade-social-o-que-e-tipos-e-exemplos-803.html

https://amenteemaravilhosa.com.br/solomon-asch-psicologia-social/