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CRISE DE DISCERNIMENTO E DE PRÁTICA CRISTÃ

“Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.” – Santo Agostinho.

 

A Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, (b)arca bendita que ao longo dos séculos recolhe do mar fétido do pecado os que se convertem e se mantém seguindo as orientações das Sagradas Escrituras, da Sagrada Tradição e do Sagrado Magistério, já passou por muitas tempestades no decorrer de sua trajetória.

Atualmente a Igreja passa por uma crise de grande expressão, potencializada pelo amplo acesso dos fiéis aos meios de comunicação, em especial as redes sociais disponíveis na Internet, que proporcionam a intensificação dos debates e a apresentação de miríades de ideias e argumentos – que circulam ao redor do mundo com rapidez superior a rastilhos de pólvora.

Observando essa realidade, refletimos sobre a importância de ponderar a respeito do foco da atuação cristã. A nosso ver, a atual crise se centra basicamente em dois eixos: consiste, em primeiro plano, em crise de discernimento. Dentre tantas possibilidades de orientações teológicas e pastorais apresentadas, se têm dificuldade para distinguir o joio do trigo… O emaranhado de teorias, teses, nuances filosóficas e teológicas tende a gerar uma grande confusão.

Tal crise de discernimento contribui, a nosso ver, para uma crise também na prática cristã. O “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” fica prejudicado em meio a todo esse burburinho. Reputamos que é justamente aí que se encontra a solução, a “luz no final do túnel” para toda a questão: “Amai-vos uns aos outros!”

A crise, manifesta em especial na disputa pela primazia entre múltiplas tendências, revela claramente que não será pela via intelectual que se chegará ao entendimento. A esperança, na qual “apostamos todas as fichas”, se encontra no coração, no amor! Buscando balizar essa reflexão na Palavra de Deus, encontramos preciosas lições nas epístolas de São Paulo Apóstolo, que recomenda aos irmãos na fé:

Por isso, também nós, desde o dia em que o soubemos, não cessamos de orar por vós e pedir a Deus para que vos conceda pleno conhecimento da sua vontade, perfeita sabedoria e penetração espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor, procurando agradar-lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus. Para que, confortados em tudo pelo seu glorioso poder, tenhais a paciência de tudo suportar com longanimidade [grifo nosso]. Sede contentes e agradecidos ao Pai, que vos fez dignos de participar da herança dos santos na luz. Ele nos arrancou do poder das trevas e nos introduziu no Reino de seu Filho muito amado, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados (Colossenses I, 9-14).

Reiteramos o que acima grifamos: “[…]que, confortados em tudo pelo seu glorioso poder, tenhais a paciência de tudo suportar com longanimidade.” Debrucemo-nos sobre o significado da palavra longanimidade: “1 – virtude de se suportar com firmeza contrariedades em benefício de outrem; magnanimidade, generosidade. 2. POR EXTENSÃO: paciência, resignação com que se suportam contrariedades, malogros, dificuldades etc.”

Sumamente oportuna também essa perícope paulina: Nenhuma palavra má saia da vossa boca, mas somente a palavra boa que possa edificar na fé e fazer bem aos que vos ouvem. Não contristeis o Espírito Santo de Deus, que vos assinalou para o dia da redenção. Seja eliminado do meio de vós tudo o que é azedume, cólera, indignação, maledicência e toda a espécie de maldade. Sede bondosos e compassivos uns com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus também vos perdoou em Cristo [Ef 4, 29-32].

Na Epístola aos Gálatas (5, 25 – 6, 18), São Paulo Apóstolo dispensa mais conselhos sobre a caridade e o zelo:

Irmãos: Se vivemos pelo Espírito, caminhemos também segundo o Espírito. Não procuremos a vanglória; não haja provocações nem invejas entre nós.

Se algum homem for surpreendido nalguma falta, vós, os espirituais, admoestai-o com espírito de mansidão; e tu, examina-te a ti mesmo, para que não venhas também a ser tentado. Levai os fardos uns dos outros e deste modo cumprireis a lei de Cristo. Se alguém julga ser alguma coisa, quando na realidade não é nada, ilude-se a si mesmo. Avalie cada um a sua atividade, e então terá motivo de glória somente em si mesmo e não nos outros. Cada um deve levar o seu próprio fardo.

Aquele que se instrui na fé faça participar em todos os seus bens quem o ensina. Não vos iludais: de Deus não se escarnece. Cada um recolhe o que tiver semeado: quem semeia na carne colherá da carne a corrupção; quem semeia no Espírito colherá do Espírito a vida eterna.

Não nos cansemos de fazer o bem, porque se não desfalecermos, colheremos no tempo oportuno. Portanto, enquanto temos tempo, pratiquemos o bem para com todos, mas principalmente para com os irmãos na fé.

[…] Longe de mim gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo, pois nem a circuncisão nem a incircuncisão valem alguma coisa: o que tem valor é a nova criatura. Paz e misericórdia para quantos seguirem esta norma, bem como para o Israel de Deus.

Doravante ninguém me importune, porque eu trago no meu corpo os estigmas de Jesus.

Irmãos, a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso espírito. Amém.

Exortações de teor similar abundam no Novo Testamento. E são aprofundadas na sã doutrina, a exemplo do excerto que segue, extraído dos Sermões do bem-aventurado Isaac, abade do mosteiro da Estrela (Serm. 31: PL 194, 1292-1293 – Sec.XII) , intitulado “A preeminência da caridade.”

Porque seremos nós, irmãos, tão pouco solícitos em procurar uns para os outros ocasiões de salvação, de maneira a socorrermo-nos uns aos outros no que for mais necessário e a levar reciprocamente os fardos dos nossos irmãos? A isso nos exorta o santo Apóstolo, quando diz: Levai os fardos uns dos outros, e desse modo cumprireis a lei de Cristo. E noutra passagem: Suportai-vos uns aos outros na caridade. É esta, sem dúvida, a lei de Cristo.

Quando observo algum defeito incorrigível no meu irmão – seja por qualquer dificuldade inevitável, seja por alguma enfermidade física ou moral – porque não o suporto com paciência, porque não o conforto amavelmente, como está escrito: Os seus meninos eram levados ao colo e acariciados sobre o regaço? Não será por me faltar aquela virtude que tudo suporta, que é paciente e benigna para tudo sofrer e amar segundo a lei de Cristo?

É esta a lei de Cristo, que pela sua paixão suportou verdadeiramente as nossas enfermidades e pela sua compaixão tomou sobre Si as nossas dores, amando aqueles por quem sofria, sofrendo por aqueles a quem amava. Pelo contrário, quem é agressivo para com o seu irmão que está em dificuldade, quem atormenta a sua fraqueza seja ela qual for, submete-se certamente à lei do diabo e põe-na em prática. Compadeçamo-nos uns dos outros com amor fraterno, suportando as fraquezas, perseguindo os vícios.

Toda a regra de vida que procura o amor de Deus e que por ele, com maior sinceridade, procura o amor do próximo, sejam quais forem as suas práticas e porte exterior, é sempre agradável a Deus. A caridade deve ser o único critério para todo o nosso modo de proceder: para agir ou não agir, para mudar ou não mudar seja o que for. É o princípio e o fim que deve orientar toda a nossa atuação. Nada é culpável se faz-se por inspiração da caridade e de acordo com ela.

Digne-Se conceder-nos esta virtude Aquele a quem não podemos agradar sem ela e sem o qual não podemos absolutamente nada, Ele que é Deus e vive e reina pelos séculos sem fim. Amém.”

Amados irmãos e amadas irmãs em Cristo, a maioria dessas jóias de radiante sabedoria, sumamente concitadores à prática da caridade e do amor fraterno, foram extraídos de textos da Liturgia das Horas pinçados no decorrer de uma semana.

Tal oração multimilenar, destinada à santificação do dia, disponibilizada e recomendada pela Igreja em especial aos clérigos e religiosos – e não vedada aos leigos – constitui-se precioso repositório de tesouros mil!

Fundamental esse alimento espiritual, complementar ao da Liturgia Diária – esta composta pela leitura, Salmo e perícope evangélica escolhida diariamente pela Igreja para a celebração da Santa Missa, além, evidentemente, da dedicação à récita do Santo Rosário (ou no mínimo o Santo Terço) e, se possível – e altamente recomendável – a adoração ao Santíssimo, entre outras devoções piedosas prescritas pela Santa Igreja, de acordo com as possibilidades de cada um. Com tais práticas, nos fortalecemos e robustecemos espiritualmente para vencer as insídias do inimigo, que intenta nos lançar uns contra os outros.

Acreditamos que tais práticas são sumamente necessárias à superação da crise de discernimento. Conforme se verifica, recursos o Senhor nos proporciona com prodigalidade, porém cumpre-nos fazer deles o devido uso!

A busca de seguir o exemplo de Maria Santíssima, que tudo guardava e meditava em seu coração, é também de importância fundamental! Roguemos a ela e peçamos proteção aos nossos santos Anjos da Guarda, para que intercedam por nós, de modo que nos seja proporcionada a serenidade de espírito e o discernimento para não cair nas tentações que concitam à discórdia!

Empenhemo-nos – assim o sugerimos – para fazer a diferença nesse sentido. Sejamos, por onde passarmos, a presença do amor! Que em nossas interações com todos – e de forma especialíssima com nossos irmãos e irmãs em Cristo – quem nos ver e ouvir possa afirmar, como Tertuliano testemunhou em seu relato que manifestavam os pagãos, admirados dos primeiros cristãos: “Vede como eles se amam!” (Apolog. 39).